Textos

PARA JOSÉ SARAMAGO, NO ESPAÇO ETÉREO EM QUE SE ENCONTRA

Uma homenagem do Curso de Letras ao escritor José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, que faleceu no dia 18 de junho.

Rosane Castro*

Na Viagem a Portugal, vi A bagagem do viajante. Levava consigo O evangelho segundo Jesus Cristo. Ele queria ir rumo à Terra do pecado, exatamente no mesmo Ano da morte de Ricardo Reis. Navegando sobre a Jangada de pedra, pensava na História do cerco de Lisboa. Fez Apontamentos incursionados pela sua memória. Ao aproximar-se da Ilha desconhecida, principiou a escrever Os poemas possíveis, experimentando Provavelmente alegria ao construir a Poética dos cinco sentidos. Depois, cansado da viagem, dormiu no barco que o levava. Já estava ancorado na ilha. Olhou para o mar atrás de si. De súbito, Levantado do chão pensou ter visto miragens Deste mundo e do outro. Foi o momento mágico em que deu forma ao Ensaio sobre a cegueira. O mundo está cheio de cegos vivos. Eu acho que vamos morrer todos, é só uma questão de tempo. Abramos os olhos. O único milagre que podemos fazer será o de continuar a viver, amparar a continuidade da vida um dia após outro dia, como se ela não fosse cega. Fitou o mar por mais um tempo. Depois, despediu-se. Eu continuo a viajar por Portugal nas linhas de seu mapa. Enxergo-as, A noite. Estava rodeado de estrelas. Como em um Manual de pintura e caligrafia, ele estava registrando Todos os nomes de gentes vivas e mortas. Depois pensativo disse em baixo tom baixo: – Que farei com este livro?. Fechou os olhos e nunca mais os abriu – não deste lado do mundo. Eu digo a ti, José Saramago, Leremos página por página, de cada escrito teu, e assim permanecerás vivo entre nós, mesmo que, tantas vezes, a cegueira nos tome pelos braços.

Postado por Quem sou Eu às quarta-feira, julho 28, 2010 Um comentário:

Crônicas 
My writings
O buzão

Incrível como a falta de “si mancól” de algumas pessoas nos deixam com os nervos a flor da pele. Não que eu seja do tipo estressadinho, é que aprendi (e até demais) a respeitar o limite alheio. Esse é o problema, viver num contexto social onde ninguém se preocupa com o outro e não conseguem enxergar além do próprio nariz.
Minha mãe sempre dizia para que eu não olhasse só para o meu umbigo. Não entendia o que isso significava, até o dia em que ela me apresentou o meu cordão umbilical. No inicio achei nojento, mas ela contou como se dá o vínculo materno, aqueles lances de DNA, genes e tal. Você deve estar se perguntando o que isso tem haver com o fato de pessoas sem o “si mancól”, acertei? Eu explico. Estava no ônibus indo para o trabalho, acomodei-me no assento e logo abri a pasta e peguei meu livro. Era a oportunidade que eu precisava para avançar alguns capítulos, já que tenho pouco tempo para leituras. Sabe quando chegamos ao ápice da história e não queremos perder uma só palavra contida naquela obra? Estava compenetrado, de repente, ouço um som. Era uma música que num primeiro momento achei que fosse um toque de celular. Não era. Era muito pior. Um SER exibindo seu MP 4, decidiu aproveitar seu tempo para ouvir sua música. Até aí, tudo bem. O problema é que o rapazinho não tinha fones de ouvido, portanto, ele e a torcida do flamengo conseguiam ouvir a melodia que saia dessa maravilha tecnológica. Desculpem- me os fabricantes e os usuários apreciadores dessas geringonças, não quero ser irônico, mas, esses caras não têm cordão umbilical, só umbigo. Digo isso porque alguém que tenha recebido o mínimo de educação, não invadiria o espaço do outro dessa maneira. Se eu me sentia incomodado, piorou quando ele colocou Funk. A letra de muito mau gosto, fez com que eu parasse de ler. Daquele momento em diante comecei a perder a paciência. Olhei para trás, para demonstrar meu descontentamento. Não funcionou. Claro que isso não funcionaria, o cara aumentou o volume, mostrando que tinha mais coragem que eu. Sim, me senti um covarde. Eu ficava olhando para o cobrador, pedindo com os olhos que ele desse fim ao constrangimento causado por este tipo de musica. Era um “tal” de abaixa aqui, senta ali, que me desculpem os adeptos da sacanagem, isso deveria ser proibido. Quer falar sobre sexo, procure um lugar adequado. Não em um ônibus com pessoas de religiões, educações, e gostos musicais diferentes. Pensei em levantar e pedir com gentileza que a pessoa portadora do rádio, abaixasse o volume, mas não fiz isso. É horrível a sensação de impotência que sentimos quando o nosso limite é invadido. Existem pessoas que conseguem ultrapassar qualquer barreira sem se dar conta que existem outros umbigos além dos seus. Já estava quase tendo um treco, quando a música parou. O cara desceu.
Senti pena dele. Ele não é o culpado, é apenas o reflexo de uma sociedade que se vê individualmente. Cada um por si, e, Deus (ou o diabo) por todos. Não abri mais meu livro naquele dia. Achei melhor continuar a ler Saramago quando estiver mais calmo, em respeito à obra e a mim. Afinal, tenho que tirar da cabeça aquela música hipnotizante. Ta aí a explicação. Como não percebi isso antes? O cara estava hipnotizado por essa ruptura em massa de senso crítico. São músicas subversivas, programas de TV com esvaziamento intelectual, falta de valores familiares e muito mais. Não sou santo e não tenho vocação para apregoar nada, sou apenas um cidadão consciente que tenta escalar uma montanha por dia para viver nessa selva. Agora que desabafei o caso, cuspi o que me incomodava, aliviei o stress, vou voltar para minha leitura, afinal são duas horas da manhã e pretendo terminá-la antes de subir no ônibus amanhã. Nunca se sabe aonde o raio caíra.
Postado por Quem sou Eu às quarta-feira, julho 28, 2010.

Moda
Estava cá pensando com meus botões: saio com está ou aquela blusa. Que diferença faz isso, você deve estar se perguntando. Respondo. Não faz diferença nenhuma do ponto de vista de uma pessoa “normal”. Não me interpretem mal. É que estamos numa época que o que foi feito há uma hora já é ultrapassado. É o legítimo trem bala do consumo. Tinha um amigo que dizia: compra um baú e coloca dentro as roupas que vão saindo de moda, depois espera 10 anos e vira tudo. Pronto! As roupas fora de uso passam a ter valor estético novamente. Mas, sou mulher. E, diga-se de passagem, uma boa representante da classe sempre têm dúvidas sobre o que usar. Fica difícil passar por uma porção de vitrines e não sentir vontade de dar uma olhadinha. E aquelas promoções! Nossa! Se eu tivesse um baú não teria espaço para colocá-lo dentro de casa, pois teria que ser imenso. Por dois motivos: o primeiro é que mulher além de roupas adora sapatos, bolsas, bijuterias, chapéus de todos os modelos, para todas as ocasiões. E as maquiagens? Os cremes antirugas, esmaltes, shampos e os irresistíveis perfumes?
O segundo motivo é que já tenho idade para ter virado o baú algumas vezes, portanto, se eu fosse acumulando roupas durante todos esses anos, realmente ele deveria ser bastante espaçoso.
Da forma como estou falando até parece que tenho dinheiro para me jogar de cabeça nessa loucura de moda, mas, não é o caso. Preocupo-me com a aparência, mas, não sou escrava dela. Se eu tivesse um baú, esse teria que ter um espaço adequado para a acomodação de livros, já que, se tem uma coisa que me preocupa (e isso não é aparência) é a leitura. Essa nunca sai de moda. Está sempre atualizada, mesmo que a obra tenha sido escrita no século XVII. Ao contrário, quanto mais antigo o livro, mais clássico, mais valor ele tem. Se essa moda (leitura) pegasse, tenho certeza que as pessoas se preocupariam mais com o que guardam no baú da memória (e esse não ocupa espaço).
Postado por Quem sou Eu às quarta-feira, julho 28, 2010.

TV
A menina estava vendo televisão quando de repente o pai entra na sala e muda o canal da TV.
– Paiii!! Eu estava olhando!
– Sim, eu sei. Mas esse programa não é pra você.
– Por quê?
– Tem muita violência, sangue, gente morrendo…
A menina interrompe o pai.
– É um desenho.
– Isso é um absurdo! Como essas emissoras permitem passar um programa desse nível no horário em que as crianças podem assistir.
– Mas, pai, é um desenho apenas.
– Pois eu sei minha filha, mas, não é bom pra sua formação que assista essas porcarias. Você é a filhinha do papai e precisa ser cuidada com atenção.
Nesse momento o pai já havia colocado a filha no colo e estava acariciando seus lindos cabelos compridos. O tom da voz já estava mais ameno e o olhar era doce, meigo.
A filha pega o controle da TV e sem querer (querendo) volta para o canal que estava assistindo antes da entrada desajeitada do pai, na sala.
Estava passando o noticiário em primeira mão de um crime horrível ocorrido há alguns dias atrás, que envolvia gente famosa.
A menina horrorizada muda o canal e procura o olhar do pai aprovando sua atitude.
O homem furioso grita. Abandonando aquela postura de pai preocupado e atencioso.
– O que você está fazendo, menina! Coloca já naquele canal.
– Pai, mas essa notícia é horrível, tem morte, sangue, muita violência…
A menina tenta argumentar. O pai arranca o controle da sua mão e fica com os olhos vidrados na TV. Quando entra os comerciais o pai sai da sala.
Postado por Quem sou Eu às quarta-feira, julho 28, 2010 Nenhum comentário:
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