Contar histórias

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Contadores de Histórias
 
Por Ana Lucia Santana
O contador de histórias é uma figura ancestral, presente no imaginário de inúmeras gerações ao longo da História. Em um universo desprovido de recursos midiáticos, este ser era imprescindível para a formação dos futuros adultos, conferindo às crianças, através das narrativas de histórias, ‘causos’, mitos, lendas, entre outras, uma imagem menos apavorante de uma realidade então povoada pelo desconhecido.
 
Ao mesmo tempo em que amenizava os medos e uma existência muitas vezes desfavorável, o narrador ajudava as pessoas a entenderem melhor o que se passava a sua volta, a enfrentar os dilemas e confrontos de natureza social e individual, extraindo das experiências o aprendizado mais profundo.
 
Normalmente o contador está muito presente na Era Medieval, nos castelos tantas vezes sombrios, nas moradas mais remotas, nos povoados disseminados pelas áreas rurais, com o objetivo de compartilhar suas vivências e gerar em torno do grupo magnetizado por suas histórias uma proteção gerada pelo próprio encanto do momento e pela força do coletivo. As narrativas eram tecidas pela voz mágica do contador, ao redor de fogueiras ou lareiras que contribuíam para criar uma atmosfera de intensa magia.
 
Mas o narrador oral é ainda mais antigo, remontando historicamente à Antiguidade greco-romana, na figura dos bardos, responsáveis pela transmissão de histórias, lendas e poemas orais na forma de canções. Quanto mais desconhecido era o mundo em que se vivia, maior necessidade se tinha de povoar este universo com imagens que pudessem, ao mesmo tempo, educar e fortalecer a coragem, predispondo as pessoas a enfrentarem os monstros, dragões e demônios que habitavam suas mentes.
 
O contador de histórias não era um mero reprodutor de narrativas, ele também gerava seus relatos, simplesmente mantendo-se atento à reação psicológica dos ouvintes. Conforme a disponibilidade ambiental, ele improvisava e ampliava seus contos, tendo como principal instrumento a palavra, que detém o poder de transformar o comportamento humano, como é possível perceber na mensagem transmitida pelas 1001 Noites, onde as histórias se entretecem para manter Scherazade viva e livre, e ao mesmo tempo para curar o vizir, purificando seu coração do incessante desejo de vingança contra as mulheres. Aliás, no Oriente esta tradição de curar a psique através da narrativa de estórias é amplamente preservada pelos psicoterapeutas.
 
O narrador, para melhor instrumentalizar as palavras, domina, mesmo que inconscientemente, boa parte das figuras de linguagem, de sintaxe e de pensamento, possibilitando ao contador, antigamente uma pessoa mais velha e sábia, magnetizar seus ouvintes, despertando no ambiente o poder da imaginação, tecida com uma linguagem encantada, apta a transportar as pessoas para reinos distantes e, de outra forma, inacessíveis.
 
Recentemente a imagem do contador de histórias retornou com força total, principalmente na segunda metade do século XX. Inúmeras pessoas optaram por este caminho, procurando cursos e oficinas técnicas para se habilitarem profissionalmente. Hoje, pode-se afirmar que esta ocupação começa a deixar as mãos de amadores para seguir na direção da profissionalização, pois atualmente há uma demanda crescente por este profissional, principalmente nas escolas. Algumas destas instituições chegam a reservar um espaço no currículo escolar para este evento. Às vezes até mesmo professores e bibliotecários são preparados para exercerem esta tarefa no âmbito escolar.
 
Fontes

 

 

Narrativa sem fronteiras: espaços e possibilidades

 Por Rosane Castro

Não há um método, uma forma específica de narrar histórias, simplesmente ela deve acontecer por uma necessidade de conforto, carícia, aprendi e por ser uma expressão à vida humana.

Contar histórias é um momento lúdico, prazeroso e deve ser estimado desde o nascimento do bebê para que o contato mais frequente com uma linguagem colabora para sua formação psíquica. A pedagoga Sandra Bittencourt fala da importância de contar histórias para bebês como um ato de amor:

 O primeiro contato da criança com um texto é oral, através da voz da mãe, do pai, dos avós cantando, contando. […] Escutar é o início da linguagem de afeto, um acolhida, associação de palavras e letras, um ponte para o caminho do infinito de descobertas e compreensão do mundo. A história não termina quando acaba de ler ou contar. Ela tem acesso ao cognitivo, o linguístico eo afetivo. [1]

 Sendo assim, pode concluir-se que o ato de contar histórias está muito ligado à família e todo o contexto que a envolve. Bittencourt diz que:

 Logo que a criança começa a receber diversos estímulos, sons, carícias. Começa assim a sua preparação para a alfabetização dos sentidos, para a diversidade de leituras de textos, os quais ela irá ouvir ou sentir. […] Por essa razão a história é tão importante: ela traz de volta a união entre as pessoas.[2] 

Se na família o contar histórias é um momento de carinho, dedicação e aprendizado, quando a criança adentra na escola este contato com o livro, a literatura e a oralidade deve continuar a ser estimulado. A escola como uma extensão da família deve a priori utilizar a oralidade, e toda a sua carga afetiva, para contagiar os alunos pelo gosto à leitura. Uma das formas de atrair a criança ou o adolescente para este universo que estimula o imaginário, amplia o vocabulário, faz relações com a vida real através da ficção, proporciona momentos descontraídos, de reflexão e questionamento, é o ato de contar histórias. Sheila Fontes aponta que “O homem não pode crescer sem ter sempre, dentro dele, um menino que sonha e acredita no impossível. A história faz um elo de maneira ímpar. Ela consegue dinamizar o real através do lúdico, da fantasia, do sonho”[3].

No compasso entre família e escola o autor de livros infantis, Elias José fala sobre a atenção que todos os envolvidos devem ter quando se trata de estimular o hábito à leitura:                        

Pais e professores fiquem atentos se quiserem formar gerações de pessoas mais felizes e aptas a vencerem na vida. O livro infantil, que é oferecido para a criança ler, ou lido para ela, caso não esteja alfabetizada ainda, é um brinquedo capaz de despertar o interesse pelas coisas sensíveis, criativas, inteligentes e belas. Através das histórias fictícias e da poesia, fazemos uma viagem de sonho e puro encantamento. Aprendemos sem traumas, a lidar com nossos problemas diários. Conhecemos melhor a realidade que nos cerca.[4]

 Assim, uma narração de histórias iniciais na família, com o carinho da voz dos pais e avós, e é a transmissão dos costumes e ensinamentos que auxiliar na formação intelectual das crianças.

 

 

[1] BITTENCOURT, Sandra Franco. Meu bebê ouve histórias . In .: Revista Releitura nº 21. p.58.

[2] Idem p. 58.

[3] FONTES, Sheila Rachid Mendes. Contar histórias … uma arte que não ensina . In .: Revista Releitura nº 12. p.06.

[4] JOSÉ, Elias . Literatura infantil, ler, contar e encantar crianças. Porto Alegre: Mediação, 2007. p. 28.

 

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